”, de Ian Askew e Marge Berer, consiste em uma cuidadosa revisão das possibilidades de integrar prevenção de DST/Aids nas atividades de saúde reprodutiva já desenvolvidas nos serviços de saúde. A discussão travada no artigo é extremamente oportuna no atual cenário brasileiro, dados os esforços realizados em vários municípios, estados e mesmo em nível federal, de estabelecer parcerias entre Programas de Saúde da Mulher, de DST/Aids e Programas de Saúde da Família visando potencializar suas ações de saúde sexual e reprodutiva.
A seguir, o texto de Gary Dowsett, "Algumas considerações sobre a sexualidade e gênero no contexto da Aids", problematiza os eventuais limites que decorrem do uso majoritário da categoria gênero na abordagem dos fenômenos relacionados à transmissão do HIV, e propõe a utilização de sexualidade como referencial para análises neste campo. Na sua argumentação, simultaneamente densa e bem humorada, o autor reflete como o uso quase “automático” de gênero no campo da saúde tem, em lugar de aprofundar as análises, obscurecido a importância de outros determinantes sociais. A identificação de gênero com mulher, tal como aparece em muitos estudos, e ainda a grande ênfase na saúde reprodutiva são vieses que precisariam ser superados. De acordo com Dowsett, seria necessária uma abordagem mais profunda da sexualidade como campo específico de estruturação de relações humanas e de espaços de poder, de modo a ampliar a compreensão da dinâmica da transmissão sexual do HIV.
O artigo de Martha Brady enfoca a importância, para as mulheres jovens, da incorporação da idéia de “tripla proteção”, ou seja, do uso de métodos que, além de prevenir a gravidez indesejada e as DSTs, protejam também a fertilidade das mulheres. Tal proposição se ancora, segundo a autora, na importância da fertilidade para as mulheres, especialmente as mais jovens, e no fato de que várias DSTs, como também a prática clandestina do aborto podem causar infertilidade. Assim, a idéia de tripla proteção agrega uma informação importante sobre os riscos do sexo desprotegido e aborda um aspecto da saúde reprodutiva pouco tematizado com as jovens.
Ainda refletindo estratégias de redução de riscos relacionados ao ato sexual, Nuriye Ortayli e colaboradores apresentam dados sobre uma pesquisa realizada na Turquia a respeito das percepções masculinas sobre o coito interrompido. Segundo os resultados da investigação, além de bastante efetivo, o coito interrompido é considerado aceitável por alguns homens, que inclusive o consideram um método com vantagens sobre os demais, entre elas a possibilidade de o marido contribuir para a proteção da saúde das suas mulheres. Dado ser a prática do coito interrompido relativamente disseminada em diferentes culturas, os autores defendem que este método deveria ser mais discutido no contexto de ações direcionadas à saúde sexual e reprodutiva, inclusive por ser uma forma de responsabilização masculina no campo da reprodução.
Este artigo encerra um primeiro bloco de textos de caráter mais reflexivo e voltados para a prevenção no campo da saúde sexual e reprodutiva.
O segundo conjunto de textos se aproxima das práticas desenvolvidas nos serviços ou em comunidades. Mini Elizabeth Jacob e colaboradores descrevem uma experiência realizada na área rural de Tamil Nadu, na Índia, onde foi implementado um programa comunitário para a saúde das mulheres articulando ações de saúde, emprego e renda, na perspectiva do seu empoderamento. Avaliação realizada após dez anos de implementação mostra que, embora tenha havido melhoras nos indicadores de saúde da região, essa foi mais expressiva para os meninos do que para as meninas. Os autores argumentam que a diferença refere-se à forte desigualdade de gêneros existente na comunidade, enfatizando que qualquer programa que adote o empoderamento como estratégia para a saúde das mulheres precisa enfatizar a discussão das relações de gênero.
Os estereótipos de gênero que mantém a situação de desigualdade das mulheres atravessam o trabalho em saúde também dos profissionais que o realizam. É o que mostram Simone G. Diniz e Alessandra Chacham no artigo “O ‘corte por cima’ e o ‘corte por baixo’: o abuso de cesáreas e episiotomias em São Paulo”, que problematiza os procedimentos cirúrgicos desnecessários na assistência ao parto no Brasil e seu impacto na saúde de mulheres e bebês. As autoras apontam o quanto os profissionais desconsideram as evidências científicas que propõem uma mudança radical na assistência, incluindo o abandono do uso de rotina da maioria dos procedimentos os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, entre eles os direitos à escolha informada dos procedimentos e o direito à integridade corporal. Por fim, propõem mudanças na formação de recursos humanos e a aliança entre formuladores de políticas e movimentos sociais para a transformação das práticas, um campo de ativismo crescente no Brasil.
O próximo texto, “